quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Através do espelho


Foi numa tarde sem grandes expectativas que ela percebeu.
Notou que precisava saber quem era e o que queria de novo.
Olhou-se no espelho e não reconheceu aquela pessoa que ali estava.
Ela havia lutado muito por algo que agora já não tinha mais sentido.
Ela agora queria lutar por algo melhor. Trazer ela mesma de volta.
Resolveu lutar por si mesma e pela pessoa que havia sido um dia.
Foi então que ela sorriu.
Aline Calamara.

"A senhora me desculpe, mas no momento não tenho muita certeza. Quer dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu. (...) Posso explicar uma porção de coisas... Mas não posso explicar a mim mesma".
Alice no país das Maravilhas,
Lewis Carroll,1864.

3 comentários:

  1. Muito bom. Gostei do início "tarde sem expectativas" e como isso vai resultar. Vivemos lutando por coisas que ganham e perdem sentidos e as vezes esquecemos de lutar por nós mesmos, e quando isso isso acontece estamos nos descaracterizando. Parece que a maioria entende que toda relação é de submissão de uma das partes e não de compartilhamento de horizontes. Por isso "ela" viu uma desconhecida no espelho. Mas creio que "ela" continuará vendo a mesma imagem que a faz pensar se tratar de uma desconhecida alí. A vida é movimento, transformação e representação. "Ela" irá ver outras imagens de si que também podem levá-la a um auto-desconhecimento inicial. O susto, foi pelo fato de ter passado muito tempo sem observar a si própria. "Ela", em minha opinião, nunca mais será quem ela foi um dia, nunca mais será a pessoa que ela tenta resgatar. Em sua angústia vivida, se apega a tal lembrança de forma que a transforma num "remédio fantástico" (onde fantástico aqui se enquadra no sentido psicanalítico de fantasia, no caso uma fantasia a ser vestida e vivida, mas será que resolve o problema "dela"?). "Ela" será outra pessoa. Talvez não saiba ou não queira aceitar porque o desconhecimento do que pode ser uma "outra" pessoa implica uma novidade e tudo que é novo assusta. "Ela" não tem nada a resgatar, porque não perdeu nada. São coisas que apenas estavam em um profundo sono, mas que se juntarão ao novo. Uma nova imagem emergirá.

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  2. "Ela" não tem que lutar por quem foi um dia, pois quem "ela" foi um dia é indicativo de algo que ela tanto teve ou ainda tem. "Ela" deve lutar pela pessoa quer ser um dia.

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  3. Olhe a imagem."Ela se revira ao mesmo tempo que reflete de olhos abertos como quem está olhando para "nada" que, na verdade, é seu próprio interior.

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